Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

A DELINQUÊNCIA JUVENIL E A TV

INFLUÊNCIA DA TV NA DELINQUÊNCIA JUVENIL

(Dissertação académica)

 

 

UNIVERSIDADE AGOSTINHO NETO
FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA
 
 
 
QUAL É A EXTENSÃO DA INFLUÊNCIA DA VIOLÊNCIA DIVULGADA PELA TELEVISÃO NA DELINQUÊNCIA JUVENIL QUE VEMOS EM ANGOLA?
 
 
 
LUANDA
OUTUBRO DE 2010
 
 
Sumário
 
 
INTRODUÇÃO
 
1. DEFINIÇÃO DE DELINQUÊNCIA JUVENIL E DE VIOLÊNCIA
 
 
1. 1. DELINQUÊNCIA JUVENIL
 
1.2 VIOLÊNCIA
2. A EXTENSÃO DA INFLUÊNCIA DA VIOLÊNCIA DIVULGADA PELA TELEVISÃO NA DELINQUÊNCIA JUVENIL QUE VEMOS EM ANGOLA
 
CONCLUSÃO
 
BIBLIOGRAFIA
 
INTRODUÇÃO
 
A formação dum indivíduo a nível superior envolve uma grande quantidade de exercícios de natureza científica ao longo do processo; que se traduzem em trabalhos de investigação, individual ou em grupo, com fins mensuráveis.
Com o mesmo fim nos foi sugerido pelo professor da cadeira, a dissertar individualmente sobre um tema a escolha de cada um, num universo de seis. A minha escolha, portanto, recai sobre a questão “qual é a extensão da influência da violência divulgada pela televisão na delinquência juvenil que vemos em Angola?”. Achei pertinente o tema, pois, interessou-me saber realmente se o media tem grande influência no comportamento criminal.
No entanto, procurámos antes, compreender os conceitos de delinquência juvenil e violência. Porém, abordámos o tema com base em teorias psicológicas que explicam o comportamento humano. Fizemos, no princípio uma abordagem do problema no contexto angolano, segundo um especialista da nossa faculdade. Depois, já que o conhecimento científico tem como base outros tipos de conhecimentos, empírico por exemplo, falamos um pouco do que temos observado no nosso dia-a-dia. Finalmente, explicamos o problema com base na teoria da aprendizagem.
 
 
1. DEFINIÇÃO DE DELINQUÊNCIA JUVENIL E DE VIOLÊNCIA
 
 
1. 1. DELINQUÊNCIA JUVENIL
 
            A delinquência juvenil refere-se aos actos criminosos cometidos por menores de idade.
Segundo Costa, citado por Joana Marteleira, “Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia” Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção Atelier: Exclusões s/d p.26” o menor delinquente é todo o indivíduo sujeito à jurisdição do tribunal de menores, isto é, todo o indivíduo que praticou um facto ilícito depois dos 12 anos e antes dos 16 anos, jovem a quem foi aplicada uma medida tutelar educativa. Assim, a delinquência juvenil tanto pode ser definida a partir das leis, das práticas e crenças relativas à conduta dos jovens, como pelo próprio comportamento destes últimos.
            Pedro M. Ferreira (analise social, 1997) o define assim:


 

            “Num sentido amplo, a delinquência juvenil refere todo o tipo de infracção criminal que ocorre durante a infância e a adolescência. Num sentido mais restrito, a delinquência envolve o conjunto de respostas e de intervenções institucionais e legais em relação a menores que cometem infracções criminais ou que se encontram em situações ou exibem comportamentos potencialmente delinquentes, nomeadamente nos casos em que existe grave negligência familiar ou em que as crianças ou adolescentes revelam comportamentos desviantes e desajustados da realidade psicossocial do grupo etário a que pertencem”


 

1.2 VIOLÊNCIA
 
            Violência é um comportamento que causa dano a outra pessoa, ser vivo ou objecto. Invade a autonomia, integridade física ou psicológica e mesmo a vida de outro. É o uso excessivo de força, além do necessário ou esperado.
            Assim, a violência diferencia-se de força, palavras que costuma estar próximas na língua e pensamento quotidiano. Enquanto que força designa, em sua acepção filosófica, a energia ou "firmeza" de algo, a violência caracteriza-se pela acção corrupta, impaciente e baseada na ira, que não convence ou busca convencer o outro, simplesmente o agride.
            Existe violência explícita quando há ruptura de normas morais ou sociais estabelecidas a esse respeito: não é um conceito absoluto, variando entre sociedades. Por exemplo, rituais de iniciação podem ser encaradas como violentos pela sociedade ocidental, mas não pelas sociedades que o praticam.
 
 
 
 
2. A EXTENSÃO DA INFLUÊNCIA DA VIOLÊNCIA DIVULGADA PELA TELEVISÃO NA DELINQUÊNCIA JUVENIL QUE VEMOS EM ANGOLA
 
Falar da correlação entre a violência divulgada pela televisão e a delinquência juvenil no nosso país torna-se uma tarefa difícil, pelo facto de não existirem estudos realizados em Angola que reportem tal correlação, senão algumas explicações que os especialistas (psicólogos, sociólogos ou juristas) fornecem com base em teorias, por isso o problema suscita ainda vários debates. Como diz Zassala (Psicologia Social II, 2007, p.13 – texto de apoio) “em Angola o tema ainda não mereceu a devida atenção por parte de governantes em geral e do Ministério da Educação e Cultura em particular …”.
 
Porém, podemos nos basear em teorias psicológicas que nos servirão de base para dissertar sobre esse relevante tema. Afinal, a que nível está a influencia da violência divulgada pela televisão na delinquência juvenil que vemos em Angola?
Baseando-nos em observações empíricas podemos aferir que tal influência ocupa um lugar de destaque na delinquência juvenil em Angola. É comum, em casos criminosos em que os actores tenham repetido uma acção que tenha passado num filme ou em outros programas televisivos. Como exemplo disso, estão os frequentes assaltos em dependências bancárias onde o actor aparece falando nos órgãos de comunicação social sobre os passos que seguiu para consumar tal acto. Onde chega a afirmar que a segurança nos bancos é fraca e os agentes da segurança, na maioria dos casos, estão com armas sem ou com poucas balas, não bastando, concluem que muitos guardas são débeis fisicamente.
Com efeito, os outros possíveis delinquentes que estiverem a acompanhar tal reportagem já terão um mínimo de motivos para enveredarem para o mesmo caminho.
Normalmente, os delinquentes se identificam com o autor da cena ou filme que apresenta comportamentos heróicos. Pois a televisão, com o poder audiovisual (condições propícias e mais aconselháveis na aprendizagem dos nossos dias) da sua informação facilita a aprendizagem do comportamento criminoso. Assim, o jovem não só ouve palavras que incitam à violência, como também, observa visualmente como decorre a acção do princípio ao fim. Essa acção será mais poderosa ainda se o protagonista tiver um final compensatório. A principio, o jovem não tem quaisquer intenção de colocar em prática o que assiste pela televisão, mais tarde, dada as condições precárias em que vivem grande parte das famílias angolanas, poderá criar no individuo situações frustrantes e como única forma de conseguir o que necessita será o caminho da delinquência, colocando em prática o que aprendeu na televisão, pois já sabe como se manipula um dado objecto ou situação. Ferrington (citado por Félix Neto – coord., Psicologia Social Aplicada, p.254) diz que “… os principais motivos que levam à infracção são os desejos de objectos materiais , a procura de excitação ou a busca pela obtenção de um estatuto ou prestigio junto de pares ou parentes”. Prossegue (Félix Neto, Psicologia Social Aplicada, p. 255) “… a violência atrai violência e as crianças que vivem em família ou em comunidades onde a violência é frequente e que além disso absorvem através dos media outros exemplos e representações dessa violência, encontram-se numa situação de maior risco para se tornarem também violentos.
 
Para compreendermos como o comportamento agressivo pode ser aprendido através do media e qual é a força que exerce, esse comportamento aprendido, no comportamento do individuo buscamos sustento na teoria da aprendizagem. Aprendizagem aqui compreendida como processo mais ou menos duradouro onde são adquiridos novos comportamentos e modificados os já existentes em função da interacção do individuo com o meio ambiente.
Consideremos primeiramente a questão relacionada com a socialização. Processo no qual o indivíduo vai interiorizando as normas e regras de convivência no seio da comunidade e a forma como interagir com os outros, conhecimento do que a sociedade aprova e o que reprova. Ora, se durante esse processo faltar o essencial à criança, provavelmente, a televisão terá uma grande influência no seu comportamento. Como sabemos, nos nossos dias, a televisão tem grande influência na aprendizagem das crianças.
Na teoria da aprendizagem considera-se o conceito de habituação. A habituação é um tipo de aprendizagem que leva o indivíduo a se familiarizar com uma situação hedionda, aterrorizante ou medonha. Então, a criança ou adolescente que assiste cenas violentas na televisão, acaba ignorando o poder aterrorizante transmitido pelo filme e encara-o como sendo normal; do mesmo jeito não encara nenhum choque caso aconteça na vida real. O indivíduo sente-se tão desinibido acabado assim por aceitar a violência.
A teoria da aprendizagem social de Bandura nos remete a um processo de aprendizagem chamado modelagem. Como estamos procurando entender a extensão da influência divulgada pela televisão na delinquência juvenil, vamos atender a modelagem de comportamentos indesejáveis. “ a modelagem pode também criar comportamentos indesejáveis”[1] Observamos frequentemente grupos de jovens que se atribuem nomes de personagens com temperamento cruel, conservando nesses nomes, uma agressividade intacta ou criminalidade latente. É difícil, porém, encontrar grupos ou indivíduos com nomes de figuras do bem.
 
Recorrendo ao experimento feito por Bandura em crianças dos três aos seis anos que se baseava no seguinte: as crianças eram expostas a assistência de espectáculos onde observavam os «modelos» adultos a agredirem um enorme boneco com murros e pontapés acompanhados de gritos que reforçavam a agressão. Quando as crianças experimentais foram submetidas às mesmas situações, elas revelaram uma agressividade duas vezes maior do que o grupo de controlo.
Assim, podemos entender que os as crianças ou adolescentes angolanos que estiverem expostos à cenas violentas da televisão onde se identificam com um modelo, normalmente o protagonista principal, ou o vulgo «rei» tender a manifestar um grande teor de agressividade nos seus relacionamentos com os outros membros da sociedade porque o modelo com quem se identificou só consegue satisfazer suas necessidades se agir com violência, dando origem a actos delinquentes, ou seja, comportamentos à margem das normas sociais, morais ou religiosas.
 
No entanto, os conceitos de reforço e punição do condicionamento operante de Skinner nos levarão a entender que se um comportamento delinquente aprendido na televisão for seguido de punição (ou o individuo não consegue consumar a acção ou então é retaliado pela polícia ou outros membros da sociedade) tenderá a ser extinto. Pelo contrário, se for acompanhado de reforço (diríamos, a consumação do acto delinquente, por exemplo: possessão de telemóveis, relógios, dinheiro, etc.) tenderá a repetir a mesma acção.
É o que acontece, na maioria dos casos, em Angola; as acções do delinquente são mais reforçadas do que punidas.
Ora, a delinquência divulgada pela televisão terá contribuído grandemente na delinquência juvenil em Angola devido, entre outros factores, a desestruturação da maioria das famílias angolanas onde as crianças têm escapado ao processo de socialização.
Tem se comentado amiúde, nos órgãos de comunicação social casos que retratam a violência doméstica. Problemas que acontecem no seio das famílias onde as crianças começam a receber a educação. Alguns especialistas adiantam que crianças que estão envolvidas nessas circunstâncias estão mais propensas a absorver a agressão divulgada pela televisão e consequentemente a caírem no comportamento delinquente. E ainda, os indivíduos de natureza agressiva, encontram nesses filmes ou programas que divulgam a violência o efeito catártico.   
 
CONCLUSÃO
 
            Nesta dissertação sobre a influência da violência divulgada pela televisão no comportamento delinquente em Angola, pudemos reter que é ainda um problema que carece de estudos científicos bem direccionados. 
            Porém, diversos estudos realizados (fora do nosso território) sobre a relação entre violência na mídia e comportamento agressivo, apontam que não há nenhuma evidência conclusiva dessa relação. A televisão e o cinema são apontados como irradiadores destes comportamentos, na medida que poderiam influenciar um indivíduo ou grupo. Em Angola, pensamos que não foge a regra, dada a desestruturação da maioria das famílias angolanas onde os filhos têm pouca ou nenhuma atenção de seus pais, devido entre outros factores, a pobreza e a extensão familiar, gerando lacunas de socialização ao individuo.
            Contudo, os processos que podem incitar a criminalidade através da televisão, segundo a teoria da aprendizagem, são a modelagem, a habituação e catarse.
 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 
1. NETO, Félix (Coord.), Psicologia social aplicada, Lisboa: Universidade aberta, 2004.
2. MESQUITA, Raul; DUARTE, Fernanda, Psicologia geral e aplicada, 12º Ano, 6ª ed., Lisboa: Plátano Editora, 1997.
3. ZASSALA, Carlinhos, Psicologia Social II – texto de apoio, Luanda, 2007.
4. ABÍLIO, Bênção C. N., Psicologia Criminal – texto de apoio, Luanda, 2007.
5. FERREIRA, Pedro Moura, Analise Social, 32º vol. 1997 em: www.google.com

 

6. MARTELEIRA, Joana, Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia, Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção Atelier: Exclusões, s/d. em: www.google.com

 

 

 


[1] Raul MESQUITA e Fernanda DUARTE, Psicologia Geral e Aplicada, p. 176
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

publicado por LI GONZALEZ às 18:18
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